Jornal O Serigráfico

Adriana Pierini Pina, ou simplesmente a Adriana, da Anariê, apesar de ainda muito jovem, já é uma veterana da serigrafia. Há 27 anos na área, Adriana conheceu a técnica quase por acaso, ainda na escola. “Eu era estudante de uma escola técnica pública, no curso de ‘Desenho de Comunicação’, hoje denominada ETEC Carlos de Campos e tive meu primeiro contato com a serigrafia em uma única aula. Foi paixão à primeira vista, me encantei com o processo de silk na hora”, relembra Adriana.

Com uma ideia na cabeça e muita vontade de empreender, Adriana se juntou com uma amiga e o namoprado e começou seu próprio negócio. “Foi ali que surgiu a ideia, eu em conjunto com meu namorado na época – hoje, meu marido e sócio – e uma grande amiga de classe, a Marie. Começamos a produzir camisetas em silk-screen, literalmente no fundo do quintal dos meus pais e vendíamos as camisetas personalizadas em feiras livres e, onde mais fosse possível vender, lá estavamos nós! Foi assim que nasceu a ANARIÊ: Ana de Adriana e Riê de Marie. A Marie criava os desenhos, o Demetrius era o responsável pela produção de telas e do silk, e eu pelas vendas.

Fazíamos todo o processo de criação, produção e vendas juntos, mas cada um tinha sua melhor qualificação. Isso durou por uns 2 anos informalmente, até nossa amiga Marie ir trabalhar fora do país. Foi então que conseguimos convencer a mãe do Demetrius a nos ceder o quarto da frente de sua casa que ficava em uma avenida. Surgiu assim, em 1991, a nossa lojinha de 20m², onde ficamos por 15 anos, até mudarmos para o atual endereço. O Demetrius ficava lá sozinho nos primeiros meses, até que eu deixasse meu emprego de assistente administrativo na Galassi Materiais Eletricos em Santana, onde trabalhei dos 14 aos 18 anos. Foi a única empresa que trabalhei além da Anariê e que foi pra mim uma grande escola no sentido administrativo. Até hoje tenho contanto com meus antigos patrões.”, conta.

Pouco a pouco, o negócio foi se profissionalizando, crescendo e agregando outras linhas de produtos, o que enriqueceu ainda mais os conhecimentos de Adriana e Demetrius. “Primeiro veio o trabalho informal com a fabricação das camisetas que tinham como referência a cultura indígena, pois gostaríamos que a nossa marca tivesse esse foco. Depois começamos a personalizar sacolas plásticas, pois na empresa que eu era funcionária observei que o gerente estava tendo dificuldades em comprar sacolas plásticas personalizadas por milheiro; as fábricas só queriam atender volumes maiores, então eu me ofereci para produzir 5 mil sacolas, mesmo nunca tendo feito esse tipo de silk em plástico. Nós produzimos este primeiro pedido e daí por diante focamos na personalização de sacolas, brindes e camisetas. Como tinha conhecimento na época no ramo de material elétrico, concentramos nossa área de venda de sacolas plásticas personalizadas na região da Santa Efigênia e, pouco a pouco, fomos comprando secadoras, estufas, começamos a produzir nossas primeiras mesas a vácuo e mesas de luz e de impressão e fomos nos equipando para atender todo tipo de impressão”.

Profissionalizados e com o crescimento latente da empresa, a decisão de se transformarem também em uma revenda, veio de maneira natural. “Até então não revendíamos nenhum tipo de insumo para serigrafia e muito menos para comunicação visual. Eu era cliente fiel na Galeria do Rock, nossa melhor opção para comprar suprimentos na ocasião. Foi então que muita gente começou a ir até nossa pequena estamparia pedindo material emprestado. Assim, a cada produto que comprávamos para uso, trazíamos 2 unidades. E assim surgiu a revenda de produtos para silk. Quando tentamos comprar tinta direto da Saturno para podermos obter melhor preço para revenda, eles não puderam nos atender direto, pois em nosso contrato social estávamos como estamparia e não possuíamos um volume para comprar direto da indústria. Assim, alteramos nosso código de atividade para revenda de material para silk e tudo foi acontecendo sucessivamente. Da revenda de materiais para silk-screen, migramos para revenda de suprimentos para comunicação visual, até chegarmos a vender impressoras digitais GLITTER. Com as mudanças do mercado, os suprimentos para comunicação visual foram tomando cada vez mais espaço em nossa loja e hoje lideram nosso volume de vendas”, diz.

A história de Adriana e da Anariê se mistura muito com a história da serigrafia nas últimas décadas, com o auge da técnica e a migração natural para outros mercados e processos. Mas não faltam histórias inspiradoras e lições para contar. “Sempre buscando conhecimento em tudo que era possível no meu trabalho, seja em questões administrativas ou no processo de produção, impressão em substratos variados, etc., fui buscar uma consultoria no orgão que se diz amigo da pequena empresa e, após marcar um horário e aguardar pelo tal consultor por um bom tempo, ele pediu para que eu descrevesse como era o processo produtivo da minha empresa e, como na ocasião nosso maior foco era a personalização de sacolas em silk, fazíamos cromia em sacola plástica. Como ele que não conhecia nada de silk, ficou perplexo e achou realmente uma loucura nós personalizarmos uma a uma as sacolas plásticas; não conseguiu enteder que nosso foco na época eram pequenos comerciantes, lojas de shopping que gostariam de oferecer uma embalagem mais bem elaborada e tinham dificuldades de adquirí-las nas quantidades que lhe conviessem. Foi então que ele me aconselhou assim: ‘Você sabe a quantidade de turista que se recebe na Cidade de Nossa Senhora Aparecida?’ Segundo ele, naquela época era muito maior do que em Roma, e disse: ‘Por que você não produz brindes com temas religiosos, chaveiros, camisetas e vá para Cidade de Aparecida vender nos camelôs? Com esse processo de produção de sacolas uma a uma você não vai conseguir progredir’. Eu saí de lá muito decepcionada, pois o tal consultor não conhecia absolutamente nada de serigrafia. Como então ele poderia prever que eu não conseguira progredir? Todo nosso processo de crescimento até chegarmos aqui se deve a este trabalho que ele disse ser inviável lá no passado e tenho muito orgulho de ter estado por anos atrás de uma tela com um rodo na mão e com isso ter ganho alguns calinhos”, comenta.

Foram muitas as mudanças nesse tempo, como conta a veterana: “quando comecei na serigrafia como prestadora de serviços a maior parte dos serígrafos que eu tinha contato eram pessoas como eu, que trabalhavam informalmente e, quando o cliente nos perguntava se era possível personalizar algum objeto, seja qual fosse o objeto, nós íamos atrás da solução, ficávamos planejando moldes e inúmeras formas de personalizar os produtos já fabricados que os clientes desejavam. Na grande maioria das vezes, a gente achava uma solução. Hoje, isso mudou, vez ou outra desenvolvemos trabalhos especiais de personalização em objetos fornecidos pelos clientes, pois ainda sou teimosa e gosto do barulhinho que o rodo faz quando desliza na tela!!! A impressão digital veio e achou o seu espaço, muitas personalizações feitas no passado manualmente foram substituidas pelas produzidas em impressoras digitais; os valores dos equipamentos foram se tornando um pouco mais acessíveis para pequenos empreendedores que movem este país, mas o mercado está aí e é para todos, com crise ou sem. Para quem tem disciplina, perseverança e muita garra, sempre acaba descobrindo o seu caminho. Espero ainda poder ver muitas mudanças e cada vez mais aprender!”.

Entre as pessoas mais importantes de sua trajetória, Adriana declara: “Os personagens de minha história profissional e pessoal se misturam muito, pois formamos uma empresa familiar. Eu, junto com o Demetrius, meu marido, criamos a Anariê e estamos à frente dela até hoje. É claro que contamos com muita gente boa que passou por aqui ao longo destes 25 anos de empresa, clientes que se tornaram amigos pessoais, fornecedores que acreditaram em nosso trabalho e funcionários que fizeram a diferença; alguns deles estão conosco há quase 17 anos. Minha irmã Cristina é uma dessas pessoas, que também como eu, é mãe, mulher, dona de casa e colaboradora da Anariê. A Marie, é claro, minha colega de escola e até hoje minha amiga, faz parte desta história. Minha sogra que cedeu um espaço da sua casa para comerçarmos, nossos filhos, Caio (21 anos) e Lais (18 anos), que por muitas vezes nos ajudaram ainda muito crianças na produção, nas entregas; muitos sacrifícios foram feitos até chegar aqui. Com certeza existem muitos outros personagens, mas estaria me alongando muito se fosse mencionar a todos, porém sempre serei grata pela participação de todos eles”.

Para finalizar, a veterana nos deixa um depoimento sobre o que acha importante destacar em sua história de vida: “minha família, nada do que foi conquistado profissionalmente e financeiramente teria sentido se não tivesse conseguido conciliar junto com a criação de meus filhos, fazendo com que eles soubessem o valor real do trabalho e não o preço das coisas. Meu companheiro, sócio e pessoa fudamental no meu crescimento profissional e na minha vida. Meus pais, irmãos e meus amigos mais próximos que estão do meu lado em todas as ocasiões há mais de 20 anos. Não levo nada daqui quando partir, nem deixo nada de real importância a não ser o amor por tudo aquilo que fiz e pelas pessoas com quem convivi”.

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