Jornal O Serigráfico

Por: Mara de Paula Giacomeli

“Ser impressor é fundamental. É preciso consultar a literatura técnica constantemente”

O primeiro contato com a serigrafia surgiu na vida de Carlos Vieira como uma oportunidade de reconstruir sua vida profissional.
“Trabalhar como redator, uma atividade puramente intelectual, começou a me incomodar. Iniciei então a procura por outra expressão profissional. Um trabalho bacana necessita envolver as mãos e os sentidos, não somente a cabeça”, comenta.
Solteiro e sem filhos, se desligou dos textos para entrar em um período de procura e reflexão associado à mudança da vida profissional.
“Foram três anos nessa crise. Até que em um determinado dia, estimulado por um amigo, cheguei ao curso de introdução à técnica da serigrafia, no qual o professor Piero Denari ministrava em um galpão na Rua Jandaia, no bairro da Bela Vista, na capital de São Paulo. Foi o começo. Tudo que sempre almejei estava bem ali, diante dos meus olhos. Estantes cheias de latas de tinta, diferentes solventes e aditivos, odores novos, rolos de tecidos brancos, vermelhos e amarelos. Filmes de recorte, nylon, poliéster, colas, emulsões fotográficas. Palavras e expressões que nunca tinha ouvido falar. Quanta coisa bacana”, relembra.
Iniciava-se ali um longo período de aprendizado e pesquisa que hoje já soma 37 anos. A falta de conhecimento do novo serígrafo só era menor que a vontade de que tudo desse certo.
“Eu era principiante e fazia uma sujeira enorme, desperdiçava muito material. Perdi muita tinta neste período. Até hoje ao descartar alguma coisa, me vem à tona esta fase. Às vezes (muitas vezes) nada dava certo. Eu pegava o telefone e ligava para todos questionando: Por que a emulsão está saindo na revelação? Alguém pode me explicar por qual motivo se o retardador é universal não deve ser utilizado em certo tipo de tinta? Bicromato de amônia é mesmo perigoso? Dá câncer? O que lê uma tela de 77 fios? E uma de 120? Por que 16 newtons de tensão? Hein? Hein?”, confessa Carlos.

Eram muitas perguntas e, neste cenário, Carlos se incomodava com a extrema habilidade de alguns profissionais da área.
“Certa vez, cheguei a ver no balcão de sua loja de suprimentos o professor Denari executando uma prova de impressão, vestindo terno e gravata, manipulando tinta, solvente e rodo sem fazer qualquer sujeira, sem se afobar. Nossa, pensei, será que algum dia vou chegar nesse nível? Foi um período marcado por insegurança técnica e muito aprendizado. Se o sujeito não sabe nada e pensa que sabe tudo, quebra a cara.”

Carlos logo descobriu a escola Senai Theobaldo de Nigris, no bairro paulistano da Mooca, onde frequentou assiduamente o curso de preparador de matrizes serigráficas e em seguida o de confecção de fotolitos preto e branco. Eram os anos 80. O ambiente industrial do Senai era muito estimulante. Os instrutores recebiam e transmitiam treinamento de alto nível.
“Vibrei com o acesso a um laboratório serigráfico tão completo e moderno. Tecidos suíços, emulsões e filmes pré-sensibilizados importados da Inglaterra, rodos italianos. Tudo de graça ali no Senai. Fiquei me achando o máximo!”
Nenhum trabalho de silk demandaria, então, maior conhecimento do que aquele que ele vinha avidamente acumulando, frequentando as aulas noturnas das 19 às 22 horas, certo? Não. Errado!
Seus conhecimentos técnicos são colocados em questionamento quase que semanalmente desde aquela época. É comum até os dias atuais vê-lo ao telefone, conversando com os químicos das fábricas de tintas e de emulsões, com os distribuidores de papéis. fornecedores de lâmpadas, gráficas, entre outros. O aprendizado é constante na Serygrafia Aplycada, sua empresa no bairro de Indianópolis, que atende basicamente a profissionais de arquitetura e do design gráfico, imprime cartões de visitas, convites, pastas, etiquetas, rótulos e outros serviços.
Carlos se recorda de certa ocasião em que recebeu da Europa um lote de papel vegetal no qual seria impressa a sobrecapa de um esperado livro do principal designer gráfico do país, o mestre Alexandre Wollner.
“Nada podia dar errado, tudo deveria estar dentro das rigorosas especificações técnicas do autor. De repente, tive uma intuição. Na noite anterior ao início da fase de impressão, separei uma folha, onde tracei uma linha medindo aleatoriamente 600mm. Deixei então o papel ‘dormir’ na oficina. No dia seguinte, medi novamente, tinha 605mm. Essa movimentação teria comprometido o registro de cores em 5 mil lâminas daquele vegetal importado, caríssimo. A solução foi aclimatar o papel, a impressão serigráfica começou só alguns dias depois e ficou perfeita.”

Todos esses anos de estrada instituíram na vida corporativa de Carlos uma pergunta básica a ser feita todos os dias: “Quem é o meu cliente?”

“Para uma gráfica de serigrafia, em tempos computadorizados como estes, fazer esta indagação pode ser ainda mais importante do que responder. Quem sabe seja esta a maior dica para quem está começando. Uma gráfica serigráfica exige muita pesquisa técnica. Conheço gente com um conhecimento enorme na área, com experiência e indiscutível capacidade de análise, mas que não são impressores, e isto reduz demais a contribuição que possam oferecer. Ser impressor é fundamental. É preciso consultar a literatura técnica constantemente. Tudo está hoje disponível na rede, mas o sujeito tem de estar aberto ao conhecimento”, finaliza Carlos.

Serygrafia Aplycada
www.serygrafia.com.br

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