Jornal O Serigráfico

Helio Bianchini, paulistano da Mooca, é um exemplo de empreendedorismo nato: desde criança, sempre muito curioso, usava tudo o que aprendia para produzir e vender seus produtos para a clientela da quitanda da família. “Minha mãe tinha um comércio e eu ia pra lá com ela no meu tempo livre. Comecei fazendo e vendendo pipa, acho que com uns 6 anos de idade. Foi lá que fiz meu curso de administração e de marketing (risos). Minha mãe tinha uma concorrente portuguesa que também tinha uma quitanda um pouco mais distante e muitos clientes daquela região vinham comprar no nosso comércio. Minha mãe era muito atenciosa, sempre dava um brinde para as clientes que compravam valores maiores e isso foi cativando a clientela. Para as moças recém casadas que não sabiam cozinhar, ela ensinava uma receita a cada dia, sempre utilizando os ingredientes que tínhamos nas nossas prateleiras, o que acabava amarrando a venda. Aprendi com ela desde cedo. Aos 9, aprendi a fazer gaiolas e a clientela da minha mãe adorava minhas criações, achavam super bem feitas e comecei a fazer para vender também. Em junho, cozinhava e vendia pinhão. Depois, aprendi a montar rodas de bicicleta com um senhor que montava e consertava bicicletas perto de casa. Sempre fui muito curioso e tenho o comércio nas veias”, relembra Sr. Helio.

Sua carreira na Serigrafia também começou muito cedo. Aos 12 anos, quando estudava pintura, sempre teve uma preferência pelas letras e facilmente se tornou um letrista profissional. “Meu professor queria que eu fosse um artista da pintura, mas eu gostava mesmo das letras e não sosseguei enquanto não arrumei um emprego numa empresa de comunicação visual. A empresa era completa, tinha marcenaria, a parte de pintura de placas, faixas e painéis e lá aprendi muito. Eu fazia vitrines, inclusive do Mappin, campanhas políticas, etc. Com uns 15 anos, trabalhei numa empresa que pintou os primeiros painéis do Edifício Nacional e eu ajudava o dono procurando em revistas da época as cenas que ele precisava pra se inspirar. Até de modelo para uma das pinturas eu trabalhei. Fui pegando experiência, muitas vezes aprendendo sozinho”, conta.

A entrada definitiva na serigrafia veio com uma espécie de concorrência… “Ia acontecer o lançamento de um loteamento e meu chefe pegou o serviço para produzir 1500 bandeirolas. Ele me perguntou em quanto tempo eu conseguiria produzir e disse que em 10 dias, porque eu trabalhava com spovero na época. Ele contratou um rapaz que veio e fez o trabalho em apenas uma noite, usando a serigrafia, algo que eu ainda não conhecia. Observei tudo aquilo com atenção. Vi que o processo proporcionava repetibilidade, que era um caixilho de madeira com uma seda esticada e um filme, que dava o contorno das letras – na época o filme rubi. Ali eu entendi que aquele era o meu caminho. Logo em seguida entrou outro trabalho menor, de apenas 12 peças e eu resolvi tentar fazer via serigrafia, com o que eu tinha aprendido vendo o rapaz trabalhar. Deu certo e daí em diante fui pegando mais e mais trabalhos de serigrafia, cada vez maiores. Em 1958 meu chefe me desafiou a tecer para a confecção de uma tela de 80 cm x 4 metros para uma campanha da Monark. Fiz as telas e deu tudo certo. Daí em diante, comecei a querer fazer coisas fotográficas ”.

Logo, ser um funcionário da empresa já não satisfazia mais os planos audaciosos do jovem e ele resolveu montar uma empresa. “Ali, em 1958, nasceu a Agabê Decorações. Meu ex-chefe se tornou meu maior cliente e sempre me mandava serviço. Certa vez, fui tentar entrar na Estrela e o responsável me disse que se eu conseguisse fazer uma matriz que produzisse 100 mil impressões, eu estaria contratado. Quando fui ver as telas dele, aprendi mais uma: as telas eram pintadas a revólver com uma mistura de gelatina animal com álcool. Ele aplicava e na hora ficava gelatinosa, esperava secar e passava outra camada de gelatina com bicromato. Era o sistema de filme capilar, que se popularizou muitos anos depois. Em resumo, o Alcir de Souza Ribeiro fazia filme capilar antes de todo mundo, mas ele não vendia, só fazia pra ele. Saí de lá e fui para a Oscar Flues aprender a fazer matriz fotográfica, em 1961. Eu fiquei louco quando vi, era um sonho! Agora faltava aprender a fazer fotolito… Comecei a mandar fazer numa firma que tinha em frente, a Idex. Conversando com o pessoal de lá, eles me propuseram pintar a marca deles no prédio, a 30 metros de altura. Aceitei e essa foi a primeira vez que subi num balancim. Acabei virando amigo do pessoal e aprendi com eles a fazer negativo e positivo. Sempre fui avançadinho nesse ponto. Comprei uma câmera fotográfica, uma lâmpada de arco voltaico e um relógio pra marcar o tempo e comecei a fazer os fotolitos”, explica.

Depois de alguns anos, a empresa já estava em outro patamar e já fornecia produtos para os seus próprios fornecedores, “vendíamos matrizes para a Sil Rosa e para a Coramet”. Mas o pioneirismo de Helio Bianchini não parou por aí: em 1972 começou a importar lâmpadas e depois bombas de alta pressão para limpeza, além de emulsões com diazo, que ele só utilizava nos próprios trabalhos. Também esteve por 15 dias na Suíça se aprofundando ainda mais na serigrafia. Quando a Oscar Flues resolveu parar de fabricar emulsões, o empreendedor resolveu começar a fabricá-las. “Ali nasceu a Auge. Precisava de uma loja para vender meus produtos. O nome escolhido tinha que começar com A para vir logo nas primeiras páginas da lista telefônica. Em 1978 foi o lançamento oficial da marca Agabê, introduzindo no Brasil a fabricação de emulsões diazóicas e uma linha de produtos químicos para preparação e recuperação de matrizes com tecnologia de ponta a nível mundial. Também fomos a primeira empresa a fornecer fichas de segurança e folhetos técnicos ensinando a confecção de matrizes fotográficas de alta definição. Em 1989, lançamos as emulsões dupla cura e também fomos uma das primeiras empresas no mundo a desenvolver emulsões pré-sensibilizadas (linha Unifilm) consideradas as emulsões do futuro, extremamente resistentes. Demos de brinde as telas emulsionadas com a Unifilm para alguns clientes e 4 anos depois, visitando uma empresa no Uruguai, vi a tela lá. Resolvemos revelar e ela ainda estava perfeita!”, relembra.

E foi a ousadia, o empreendedorismo, a inteligência e o tino comercial do Sr. Helio que fez da Agabê a empresa de renome e confiança que é hoje. Os três filhos aprenderam desde cedo os valores do pai e hoje estão à frente do negócio. Além da família, o Sr. Helio tem grande gratidão ao técnico catalão Armando Spinosa, que o orientou em diversos momentos, ajudando a analisar o que ele deveria ou não trazer para o Brasil, além de tê-lo ensinado a mexer nos equipamentos. A empresa suíça SST Thal também teve grande participação nessa trajetória, pois foi com eles que o Sr. Helio aprendeu muita coisa. Grandes empresas como General Electric e Arno, clientes do Sr. Helio, também proporcionaram um grande crescimento ao veterano. “Eu ia uma vez por semana na Arno e trazia os protótipos do que deveriam ser as telas que usaríamos nas impressões”, comenta.

Para finalizar, o Sr. Helio nos deixa uma lição que aprendeu com a mãe, ainda muito pequeno. “Um negócio para ter longa vida, precisa ser sério. Minha mãe me ensinou as maiores lições de empreendedorismo, marketing, administração, vendas e comprometimento com o mercado. Ela sempre foi muito séria e correta com seus clientes e essa foi uma lição que trouxe para minha vida e transmiti aos meus filhos. Esse é um dos ingredientes do sucesso da Agabê”.

Comente: