Jornal O Serigráfico

Osvaldo Elias Farah, de Cerqueira César, interior de São Paulo, é um empreendedor nato. Ainda jovem enxergou oportunidades e se arriscou no mundo dos negócios. “Comecei minha carreira como bancário, no Banco do Brasil. Em 1976, passei em um concurso para lecionar administração de marketing na Universidade Federal de São Carlos e me mudei com minha família para o interior. Minha esposa era professora e artesã. Como não havia aulas para ela, vislumbrei minha primeira oportunidade de negócio: embora na cidade houvesse vários artesãos, não havia uma loja especializada em venda de matérias-primas. Em conversa com algumas pessoas, visitei centros produtores de madeira, em Serra Negra, fabricantes de cerâmica vermelha, em Jaboticabal e de cerâmica branca, em Santa Rita do Passa Quatro e Jaguariúna. Na capital, encontrei fornecedores de tintas, pincéis e acessórios. Ali nasceu a Roseart”, conta Farah.

Para ampliar os negócios, o casal decidiu também ministrar cursos de pintura em cerâmica, em gesso, em tecido, em tela, revestimento de caixas de madeira e art noveau e o negócio começou a tomar corpo. “Com os cursos, naturalmente aumentamos o número de artesãos demandando nossas matérias-primas. Mas não paramos por aí: criamos cursos para confecção de bonecas de pano, corte e costura, perfumes, sachês, sabonetes decorados, ovos de Páscoa, cabeleireiro e manicure. Em pouco tempo os artesãos forneciam bonecas de pano para vendedores da região. Mas logo chegaram os problemas: para comprar três vidrinhos de tinta vermelho fluorescente encomendada por uma cliente, precisava pedir no mínimo doze. Muitas vezes a quantidade não compensava a viagem para São Paulo. Nesse ramo, é raro ter vendedores que venham até a loja, facilitando a redução de custos com deslocamento”, relembra.

Mas foi no momento de dificuldade que Farah conheceu a serigafia e teve nela uma nova oportunidade. “Fui procurado por um profissional de silk-screen que precisava de tintas. Ele conseguia encontrar pouca coisa em uma papelaria e em uma casa de tintas da cidade, especializada em construção civil. Foi a oportunidade para começar a revender este material e dar curso de serigrafia. E foi a minha sorte! Enquanto este segmento crescia, o do artesanato diminuía. Diversificamos tanto que a loja começou a vender de tudo: papelaria, armarinhos, artesanato, silk screen… Aos poucos, evoluímos buscando atender às exigências de nossos clientes e na procura de novos materiais. Sempre que as indústrias fabricavam alguma tinta nova, nós perguntavamos como seria a sua aplicabilidade, em que material, solventes necessários etc. A meta era vender cada vez mais!”

O negócio cresceu, a loja passou a se chamar Silk Center e Farah viu o mercado se transformar. “O mercado mudou muito. Desde o início, visitamos todas as feiras de silk screen. O silk reinava absoluto. Acompanhei o surgimento de madeira e lona para banner, vi o polietileno substituir o tecido de algodão nas faixas e assisti ao nascimento das plotters de recorte. Aos poucos esses produtos eram incluídos na loja. Com o passar dos anos, materiais de comunicação visual, como adesivos, imãs, bastões de madeiras, máscaras, tomaram conta das prateleiras. E ocuparam boa parte do espaço que, anteriormente, era território exclusivo do silk screen. O marco da mudança ocorreu quando as ‘plotters de impressão’ invadiram o mercado e quase acabaram com as vendas de tintas de silk. O pior golpe: os fornecedores das plotters de impressão passaram a vender as tintas sem a necessidade das lojas distribuidoras, como a nossa. Ao mesmo tempo em que este mercado evoluía, tentávamos a todo custo acompanhá-lo. No entanto, cada vez mais clientes compravam plotters de impressão e a venda de vinis de recorte despencou. Também começamos a ter problemas com empresas que importavam vinis diretamente, principalmente os de impressão digital. No momento atual, sentimos o reflexo do sistema transfer e sublimação. Ou mergulhamos neste segmento que movimenta o setor de brindes ou, mais uma vez, saíremos derrotados. E perder quando o mercado está aquecido é burrice”.

Depois de de mais de 30 anos, Farah resolveu “passar o bastão” para um antigo e fiel colaborador. “O Nei foi um grande parceiro por mais de oito anos. Ele e seu sócio Rubens, empresário bem sucedido em vários segmentos, têm a missão de levar adiante o sonho construído em mais de trinta e cinco anos. Eu, apesar de não estar diretamente envolvido no negócio, não quis perder o contato com a loja. E me ofereci para dar consultoria gratuitamente. Estou certo de que a Inova Silk, sucessora da Silk Center e da Roseart (a filha que deu origem a estas duas), será eternamente lembrada por todos os clientes”, diz.

Entre os personagens importantes de sua trajetória, Farah declara: “centenas de pessoas fizeram parte dela – clientes,  fornecedores, colaboradores, amigos. Mas há dois companheiros fundamentais nessa empreitada. Sem eles, jamais teria sido bem-sucedido – a minha esposa, Rosely e o meu sócio Sebastião Gonçalves, íntegro, dedicado, leal e dotado de um extraodinário feeling para os negócios, sem nem ter concluído o ensino fundamental. Não usava computador. Marcava as informações em um caderno e fazia  prestações de conta impecáveis”.

Em 35 anos de história, não faltam episódios peculiares. “Uma das coisas mais hilárias aconteceu com o meu sócio, o Sebastião. Eu o convenci a tirar um talão de cheques, pois achava perigoso andar por São Paulo com dinheiro vivo para as compras de mercadorias. No bairro do Brás, havia um tecelagem que fazia tecidos para silk. Além de dinheiro, aceitava cheque visado ou administrativo e meu sócio passou alguns cheques pré-datados. Um dos fornecedores depositou um deles antes do prazo e o gerente do banco ligou para o Sebastião informando que não havia saldo na conta da empresa. Inconformado, meu sócio me ligou e disse que precisava falar comigo sobre um assunto urgente. Quando entrei no escritório, ele estava com o talão de cheques na mão. ‘Farah, sabe o que vou fazer com este troço?’, perguntou, rasgando o talonário antes que eu conseguisse demovê-lo daquela ideia maluca”, relembra.

Sobre o que há de mais importante em sua história, Farah declara: “o apoio de minha esposa foi fundamental em minha trajetória. A Rosely foi uma companheira em todos os momentos da minha vida. Além dela, tive o apoio dos meus filhos Fábio e Daniela, familiares, amigos, colaboradores, fornecedores e clientes. Não posso deixar de registrar o apoio do Nei e de sua esposa, Riza. Também nos deixa felizes ver antigos clientes – pintores de muros, estampadores de camisetas, profissionais de arte final, silkadores – que se tornaram empresários de sucesso, alguns com mais de 20 funcionários. Não posso esquecer aqui nossos grandes parceiros fornecedores de matéria prima. Agradeço a todos, mas tenho um carinho especial pela família Almeida na figura do Sr. Almeida e esposa; e da família Colello na figura do Fábio, seus pais e seus irmãos. Aos grandes irmãos Lauro, da Screen & Cia e o Luiz, da Vitrine, que estenderam a mão nos momentos em que mais precisávamos. E a todos os nossos funcionários e clientes fiéis que não nos abandonaram nos momentos mais críticos. Aos colaboradores de todas as empresas: fornecedores e clientes que se tornaram não só parceiros mas, grandes amigos. E não poderíamos deixar de agradecer Àquele que é, sem dúvida, a razão de nossa existência e sucesso: o bom Deus misericordioso. A Ele, toda a Glória e o Louvor”, finaliza.

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