Jornal O Serigráfico

Aos 15 anos, a paulista Ruth Mauricio de Faria começou a trabalhar como auxiliar de escritório e foi ali que conheceu e se apaixonou por seu futuro marido, com quem se casou dois anos depois.
Logo veio o primeiro filho, na mesma época em que seu marido foi transferido para Ribeirão Preto. Ruth acompanhou o marido, mudando de cidade, mas optou por sair da empresa e assumir o papel de mãe e dona de casa. Após 7 anos voltaram para São Paulo, porém a felicidade de voltar para sua terra natal foi interrompida pela morte do marido.
Ruth era então uma viúva, mãe agora de 2 filhos pequenos, desempregada e precisando arranjar uma forma de sustentar a família.
Em razão de seu esforço desmedido, conseguiu emprego como vendedora interna em pequenas empresas até que, em 1992, apareceu uma oportunidade no setor administrativo da Color Screen Ind e Com Serigrafia.
Começava ali, mesmo sem nenhuma experiência, sua jornada na serigrafia, e foi logo em seguida, quando surgiu uma vaga de gerente de vendas em uma filial da empresa, que Ruth foi forçada a conhecer mais tecnicamente cada etapa desta área.
“Nem imaginava o que era esse ramo e também iria continuar sem saber caso tivesse continuado no setor administrativo pelo qual fui contratada, mas Deus, que sempre traça nossos caminhos com perfeição, fez nascer uma vaga em uma pequena filial da empresa. E lá vou eu, cair de paraquedas nas grandes galerias: Loja 333 – 2º Andar… imagine, quem nunca ouvira falar em fotolito, matriz, tinta vinílica, chegar e chefiar uma loja. Caminho de Deus!”, recorda Ruth.
Ela se viu, portanto, diante de uma nova profissão sem entender nada do assunto, mas com uma grande força de vontade de aprender, impulsionada por sua abundante necessidade.
Ruth deposita grande parte de tudo que aprendeu na vivência do dia a dia, onde a troca de informações foi essencial para seu constante aprendizado.
“Dizem que a necessidade gera a criatividade, e esse foi meu caso. O dia a dia no balcão, as perguntas dos novatos no ramo, a ajuda dos fornecedores, os boletins que os fabricantes mandavam (na época impressos), os experientes profissionais que me ajudavam na hora das dúvidas e, claro, uma super força de vontade, iam aos poucos me fazendo entender os mistérios e curiosidades dessa técnica milenar e apaixonante”, relata Ruth.
Ruth foi então aos poucos se adaptando àquele ramo tão repleto de detalhes técnicos e posiciona Deus como principal responsável por abrir as portas em empresas de renome, colocando-a diante de profissionais experientes.
“…a cada passo, sei que subia um degrau”, reflete Ruth.
Na época em que a serigrafia começou a ser vista como um ramo em declínio, Ruth depositava toda sua confiança para provar o contrário.
“Enquanto muitos diziam que a serigrafia estava com seus dias contados, eu aumentava minha certeza que o mercado era bom. É impossível que uma área onde se imprime desde chocolate até vidro de barco acabe só porque alguém de pouca visão determinou que assim seria”, diz.
Depois de trabalhar um ano na Color Screen, recebeu uma proposta numa empresa de grande porte na função de gerente financeira com um salário muito acima da média. Apesar de não ser em sua área, Ruth foi aceita por ter sido indicada como alguém de total confiança, que era o que a empresa almejava no momento. Mas a idealização de trabalhar em uma grande empresa foi aos poucos desmoronando quando se deu conta que o ambiente era hostil e os funcionários pouco amistosos e, com isso, três meses depois, pediu demissão e retornou à Color Screen, onde permaneceu por mais 11 anos.
Foram estes anos essenciais para insuflar seu gosto pela serigrafia, o que a levou a continuar em empresas do segmento.
Na Auge, Grupo Agabê, onde permaneceu por 3 anos, dispôs de uma verdadeira escola técnica. E, em seguida, teve outra oportunidade, quando fez parte por 8 anos da equipe de vendas da Sefar.
Ruth considera a serigrafia uma arte maravilhosa e conta com entusiasmo toda a evolução, desde a época em que usavam técnicas simples até os dias atuais, com processos muito mais avançados:
“Conheci a serigrafia em fundo de quintal, conheci as notas fiscais emitidas manualmente, as mesas de gravação feitas de caixote de madeira ou até de papelão, as emulsões feitas com cola, os removedores à base de solvente com amido de milho, o desenhista que fazia artes magníficas no filme rubi, o cadastro de clientes feito em fichinhas escritas a caneta. Hoje vemos a qualidade dos químicos biodegradáveis, dos quadros em alumínio com tecidos de altíssima qualidade e gravações que mais parecem uma mágica de tão perfeitas, dos equipamentos de CTS (gravadora que elimina o uso do fotolito), das cabines de recuperação que permitem o reuso de solventes e afins. A tinta digital, que chegou para ficar e que não roubou em nada a cena de nossa querida serigrafia, mas que veio pra somar e abrir novos horizontes, novas oportunidades de trabalho. É certo que o mercado evoluiu e que não vai parar, pois quem aprendeu a fazer bem feito sempre vai querer fazer ainda melhor. Por isso contamos com essa gente jovem que vem chegando com garra, técnicas novas e muita visão.”
Ruth encerrou a entrevista agradecendo a todos que um dia acreditaram em seu potencial e tanto contribuíram por estar hoje onde está.
“Preciso primeiro agradecer a oportunidade e confiança recebida do Sr. Toninho Dezani, Dona Miriam (saudosa) e Sr. Leonardo Juvêncio Faustinoni, que me entregaram parte de seu patrimônio e me deixaram fazer dele minha empresa e minha casa. Depois à família Bianchini, sua equipe, Juliana Sestari e Haroldo Fernandes, entre outros, colegas pacientes, técnicos experientes e que nunca negavam dividir seu conhecimento. Ao Sr. José Holmo e Wilson Dias, com quem também dividi função. Aos clientes que se tornaram amigos, como o Rafael da Brasilk. Ao Sr. Menoti e Claudio (feras no mercado), com quem faço parte da equipe atualmente. E não posso deixar de agradecer aos meus filhos Vamile e Waldir, por eles e para eles foram meus maiores esforços, minhas lutas diárias, meu empenho em sempre querer melhorar. Vou deixar uma frase feita: Não tenho tudo que quero, mas amo tudo que tenho. Minha família, muitos amigos, muita lição de vida e acima de tudo muita gratidão a Deus, que me amparou, me guardou e ‘me guiou por pastos verdejantes’, como diz o Salmo 23.”

Ruth Mauricio de Faria
www.topi.com.br

Mara de Paula Giacomeli é jornalista e editora do Jornal O Serigráfico.

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