Jornal O Serigráfico

 

Fidelidade de cores e precisão

* Rafael Roan

O simulado, assim como o indexado, é uma técnica de cromia usada em serigrafia e em outros processos gráficos. O principal objetivo dessa técnica é buscar a fidelidade de cores em relação à imagem original fornecida pelo cliente, uma vez que as marcas e seus clientes estão  cada vez mais exigentes com os pontos de qualidade e controle acordados.

A forma mais conhecida de cromia é a quadricromia cmyk que usa como cores primárias o ciano, o magenta, o amarelo e o preto como fechamento. A quadricromia funciona muito bem em diversos casos, porém conta com algumas limitações em termos de gamut de cores e vivacidade das mesmas. As diferenças entre a quadricromia e as técnicas mais recentes de cromias (simulados e indexados) começam em suas cores primárias. Na quadricromia sempre usamos ciano, magenta, amarelo e preto (e nos substratos escuros, usamos o branco como base). Com essas cores primárias nós temos o gamut de cores cmyk. Já nos simulados e indexados nós não ficamos presos às cores processadas: nós podemos usar direto no substrato tintas coloridas como vermelho, verde, laranja, roxo, marrom, cinza, etc, cores que seriam secundárias ou terciárias na quadricromia – ou seja, precisaríamos da combinação das retículas de ciano, amarelo, magenta e preto para alcançá-las.

Apenas nesse início já temos uma diferença significativa em termos de reprodução de imagem. Imaginemos que seu cliente precisa da impressão de uma imagem onde há um vermelho bem vivo. Na quadricromia nós precisaríamos da combinação de vários pontinhos (retículas) de amarelo e magenta para chegar ao vermelho. Nos simulados e indexados nós aplicamos o vermelho direto no substrato. Isso reduz drasticamente problemas com desencaixe de retículas, problemas com moiré, e o principal, problemas com fidelidade de cores.

Uma vez que você pode usar qualquer cor como primária em um simulado ou indexado, você diminui a chance de errar na cor que o cliente precisa. Existem algumas cores que são particularmente difíceis de alcançar com controle usando a quadricromia, como roxo, marrom, cinza, pele, pantones em tons pastéis, entre outras. No processo “tradicional” de quadricromia, nós daríamos saída nos filmes CMYK, gravaríamos as telas, e partiríamos para a impressão. Se a cor não for alcançada, você precisa ficar ajustando a cobertura das 4 tintas (cmyk), a quantidade de puxadas, a velocidade da puxada, etc, para tentar alcançar a cor desejada. Já no simulado e no indexado a chance de uma cor não bater é bem menor, uma vez que você formula a cor no pote de tinta antes mesmo de gravar as matrizes.

Outra grande vantagem das técnicas de cromia simuladas e indexadas é que você tem mais liberdade para usar tintas diferenciadas. Você pode usar prata perolizado, dourado, verde fluor, rosa maravilha, enfim, cores vivas e texturas diferenciadas que são impossíveis de se alcançar com as cores processadas CMYK.

Além disso, há as possibilidades na transparência da tinta, na cobertura da mesma. Em quadricromia nós usamos tintas de baixíssima cobertura, para que as cores secundárias e terciárias sejam geradas ao sobrepor as tintas ciano, magenta, amarelo e preto. Nós conseguimos deixar a tinta de quadricromia mais transparente adicionando clear, mas a variação disso não vai mudar muito. Nos simulados e indexados nós não nos prendemos tanto a usar tintas de baixa cobertura: nós podemos usar tanto tintas de baixíssima cobertura (como a sericryl ou o plastisol gel) por exemplo, ou até mesmo tintas de alto poder de cobertura (como as tintas mix e plastisol super opaco). Isso vai depender de qual tipo de resultado você deseja, se você vai adicionar branco à sua tinta, se você pretende ter mais ou menos transparência. Ou seja, até nesse ponto, há mais liberdade e controle quando optamos por simulados e indexados.

Quando falamos de simulados e indexados, 90% do trabalho é feito no computador, em programas de edição de imagens. Nós usamos as ferramentas de captura de cor do Photoshop (programa mais utilizado mundialmente para edição de imagens) e as ajustamos usando ferramentas de curvas, brilho, contraste, etc. Ainda dentro do software nós controlamos a cobertura da tinta que usaremos, quais cores, a sequência de impressão. É um processo que tende a ser mais demorado que preparar uma cromia cmyk e uma vez que temos que configurar todos esses pontos de controle (captura de cores, cobertura, vivacidade, sequência, etc.) manualmente. Uma vez que a cromia está pronta no Photoshop, já podemos dar saída nos fotolitos. Daí pra frente é tudo igual em termos de serigrafia: nas tintas de cobertura média e alta (o branco e tintas que levam pigmento branco na sua formulação) usamos telas com tecido de 54 a 62 fios e nas tintas clear usamos telas com tecido de 77 a 90 fios. Como a decisão de optar por simulado ou indexado geralmente tem a ver com o desejo de fidelidade em relação à imagem original, é interessante que os técnicos usem insumos e equipamentos que possam entregar isso como: fotolito digital, emulsão diazoica ou fotopolimérica, telas bem tensionadas, rodos afiados, mesas de impressão firmes, etc.

Essas técnicas de cromias mais recentes não se limitam apenas à serigrafia. Se você observar as embalagens de alguns produtos da sua casa, é bem provável que você consiga reconhecer que algumas delas empregam as técnicas de simulado e indexado. Se você observar embalagens de salgadinho, ou até mesmo caixas de leite de perto, é bem possível que você consiga ver que não estão usando mais ciano, magenta e amarelo como primárias. No supermercado, procure o salgadinho Cheetos assado. Identifique na margem da embalagem a tira de controle de cores que usam. Você vai perceber que usam como primárias: amarelo, laranja, verde, cinza e preto. Isso porque alcançar aquele laranja só com a combinação de amarelo processado e magenta processado da quadricromia é praticamente impossível. O mesmo para o cinza. Com isso, percebemos que as técnicas de separação estão evoluindo em mercados que vão muito além da serigrafia.

Apesar da serigrafia já ser uma técnica consolidada no Brasil, com um mercado enorme, são poucas as estamparias que dominam as técnicas de cromia mais recentes. Alguns esforços estão sendo realizados para divulgar essas técnicas através das redes sociais com o canal da Escola Gênesis e a página Puxando Rodo, seja com conteúdos gratuitos no Youtube ou através de cursos de capacitação presenciais e online.

A boa e a antiga quadricomia vai continuar funcionando bem para mercados que não exijam grande fidelidade e controle de cores, como as áreas de uniformes, promocional, brindes ou atacadistas. Agora, se você pretende atender marcas, varejistas online, bandas, merchandising, cedo ou tarde uma imagem complexa vai ser solicitada. Será que você estará preparado para atender seu cliente?

Rafael Roan é proprietário da empresa Puxando Rodo – rafael@puxandorodo.com

 

 

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